Mostrar mensagens com a etiqueta PdS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PdS. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Zeca Afonso

Na passada sexta-feira, fez 20 anos que morreu Zeca Afonso.

20 anos! Como é possível?! Estou a vê-lo entrar no palco, para o seu último concerto, e arrancar, já sem o fulgor de outros tempos,

“Do Choupal até à lapa

Foi Coimbra os meus amores

A sombra da minha capa

Deu no chão, abriu em flores”;

para, pouco depois, ter a coragem de cantar, voz embargada pela comoção, a premonitória “Balada de Outono”:

“Águas das fontes calai

Ó ribeiras chorai

Que eu não volto a cantar”.

Zeca era, foi, o maior. Todos os outros procuraram imitá-lo, segui-lo, mas de cada vez que o tentavam agarrar ele já não estava no mesmo sítio. A sua incrível intuição musical – Zeca Afonso sabia da música apenas os rudimentos – e o seu apurado sentido poético logo o atiravam mais para a frente.

Quando a moda era a canção de Coimbra acompanhada à viola e à guitarra, ele surgiu acompanhado apenas pela viola do Rui Pato; quando os demais imitaram as suas baladas acompanhadas à viola, ele surgiu com “Maio, maduro Maio”, acompanhado pela mini-orquestra do Zé Mário Branco, no mesmo disco em que arriscou lançar uma canção sem acompanhamento algum: “Grândola Vila Morena”.

Não conheci pessoalmente o Zeca. Ele era da geração de 50, enquanto eu pertenci à de 60. Mas fui colega de músicos que o acompanharam: Rui Pato, “Bóris”, Phil Colaço, 15 anos mais novos do que ele, o que dá bem a ideia da sua juventude de espírito.

Zeca Afonso não era de modas. Mas ele acabava por fazer a moda, com o seu estilo anti-vedeta. Como não era capaz de decorar as letras – nos tempos em que cantava fado de Coimbra era a malta que lhe fazia de ponto – começou a cantar com a letra escarrapachada num tripé à sua frente… e a moda pegou.

Sobre o Zeca Afonso muito foi dito e escrito nestes dias. Mas não vi referida a sua ligação à Briosa. Zeca Afonso jogou um ou dois anos na equipa B dos juniores da Académica, nos finais da década de 40, a extremo-direito e a interior-esquerdo. Como ele próprio confessou numa entrevista que deu poucos anos antes de morrer, “foi sempre extremamente irregular: sem saber népia metia assim um golo… mas no desafio seguinte jogava pouco. Não aguentava mais que vinte minutos de jogo”.

Pergunta o jornalista: – E se a Académica ia jogar fora, também ias? – É claro. – E se havia porrada no campo? – Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. E, quando o entrevistador lhe pergunta: – Mas o que te marcou em Coimbra? Responde o mesmo que eu e muitos outros gostaríamos de ter respondido: – Essa atmosfera romântica e irreverente ao mesmo tempo.

Depois de Abril, Zeca Afonso passou a património nacional e bandeira de muitas causas. O seu espírito desprendido, ingénuo, anarquista, deu azo a que muitos se apropriassem da sua imagem; e muitos são aqueles que hoje reclamam Zeca Afonso para o seu lado.

Mas é bom não esquecer que Zeca foi, antes de mais, um produto de Coimbra e da sua Academia. Mais importante do que lembrar que Zeca Afonso vestiu, ainda que episodicamente, a camisola da Briosa, é não deixar esquecer que ele é vinho da mesma cepa que produziu a Briosa, tal como eu o sou e muitos outros que naquela Academia forjaram a sua personalidade; e, até, – porque não? – outros ainda que sentem saudades dela sem nunca nela terem vivido.

O Zeca não o esqueceu. Por isso, ao dar no Coliseu de Lisboa o seu último espectáculo, o concerto em que revisitou toda a sua vida artística, fez questão de abri-lo com uma guitarrada de Coimbra, tocada por antigos estudantes de Coimbra, capas negras pelos ombros, numa época em que nem todos tinham coragem de assumir esse passado.

 

Zé Veloso.

Nova aquisição

Este blog, ao contrário da Briosa que vê diminuir o número de disponíveis a cada jogo que passa (Pavlovic não deve jogar mais esta época), vai registar uma aquisição para uma posição bem carenciada no blog.

A aquisição já esteve aqui à experiência e após discutirem-se os prémios de jogo, aceitou integrar de corpo e alma (e inspiração) este blog.

A sua entrada permitirá que o Briosa faça uma melhor ligação à Universidade e a Coimbra, cidade que acolheu sempre pessoas de fora que adicionavam Coimbra e a Briosa à lista restrita de amores.

O próximo texto é um reflexo disso mesmo. Uma homenagem a Zeca Afonso, antigo jogador da Briosa, que merece ser lida. O autor, Zé Veloso, passará a colocar os seus textos brevemente. Venham eles.

domingo, fevereiro 18, 2007

QUE DESGRAÇA

(memórias do Atlético – 0  Académica – 1)

 

Fui à bola ver a taça…

Que desgraça!

Há muito que lá não ia.

Nem sabia

– Que eu em guerras não me meto –

Que o pobre dum guarda-chuva

Agora é uma arma branca

Apesar do pano preto!

 

“Não pode entrar, é de lei!”

“Ora porra, e eu cá sei?”

– Respondi eu para o bronco –

“Um chuço que é cá um ronco…

Nem é bem pelo dinheiro

É mais pela estimação.

Foi oferta do barbeiro

Por lhe comprar a loção

Prà caspa um ano inteiro.”

 

“Que não”, não podia ser.

Ou o levava prò carro

– E o jogo quase a arrancar! –

Ou o punha ali de rojo

Num monte que era um nojo

Pra mais tarde levantar.

“Mas desde já o aviso

Qu’ eu não me responsabilizo.”

 

Lá deixei o artefacto.

Fui escada acima prò campo

Assentei o cu no banco

E fiquei estupefacto:

Que a malta vinha de preto

Mas c’ uns soquetes branquinhos

A saírem dos tamancos

Grandes ou pequenininhos

Não sei se coxos se mancos!

 

Pareciam vacas malhadas

De pelo preto no lombo

E patas esbranquiçadas!

E até os cascos pintados

De encarnado e outras cores!

Vamos lá a ver senhores

Isto é que é o equipamento

Da equipa dos doutores?

Ou é pata de jumento?

 

E o sô árbitro!

Que gozo!

De azul bebé fardado

Cara de matarruano

Se fosse há 40 anos

Diria não ter capado

Para a nossa inteligência.

Agora nem digo nada

Ao olhar para a manada.

Paciência...

 

Pus-me na primeira fila

Ao nível dos treinadores.

E agora, meus senhores

Já sei porque é que os macacos

Quando no flash interviú

– Ali, no fio da navalha –

Lhes perguntam o que viram

Dizem sempre o que lhes calha.

 

Que onde estão não se vê nada!

Ele é tudo fogo raso!

Eu sei lá se era na área

Ou se a bola atravessou

A linha de cabeceira

Ou se a gaja esteve fora

Ou dentro da capoeira.

Dali, verdade ou mentira,

Cada qual baila o seu vira.

 

Começa o jogo e a malta

Da nossa bancada grita:

“A-cadé-mi-ca! A-cadé-mi-ca!”

Quando atrás, que confusão,

Sai em coro um barulhão:

“A-telé-ti-co! A-telé-tico!”

Aquilo era tudo ao monte

Tudo gritava pró mesmo

Era tudo boa gente

Só estudantes e operários

– Como “A Bola” desse dia

Não deixava de lembrar –

Só o cabrão da portaria

Havia de chatear.

 

Felizmente, ao intervalo,

– Depois de ir a verter águas

E dar uma espreitadela

Ao monte dos guarda-chuvas,

Para acalmar minhas mágoas –

Arrimei-me mais pra cima

Prò pé da malta entendida:

O Rogério e o João Mesquita

Que me deram a equipa:

 

“Este ali é o Geano

Mas aquele é o Joeano.”

“Este aqui mesmo é o Litos

Que aquele ali é o Lino.”

Mas que grande confusão

Não vi Manéis nem Antónios

– Que demónios –

É mesmo assim, pois então!

 

É futebol à maneira

Profissional,

Sempre à beira

De mudar no fim do ano

Meia equipa

Que outra meia

Já mudou pelo Inverno

Mas que inferno!

 

E a Mancha a bater no bombo

Sem graça nas cantorias.

E a malta a falhar nos passes

Sem gozo nem fantasias.

E o Atlético a crescer

E a malta a adormecer.

E a chuva de molha patos

A entranhar-se nos sapatos.

E a equipa sem ter pressa

E eu já com dor de cabeça…

 

Chegamos ao fim do tempo

Vamos pra prolongamento

É só passar os descontos.

Quando o Pitbull arranca

Grita o Rogério e o Mesquita:

“Passa a bola meu sacana!”

“Passa! Passa! cruza agora!”

E o gajo, que nem os ouve

Não passa a ponta dum corno

Acelera, chuta a bola

E a malta já grita “Golo!”

“É golo e já está na hora”!

 

Digo adeus aos dois amigos

Que com seus gritos possantes

Assim ficaram da estória

Desta tão grande vitória.

E saio à frente de todos

Não vá que na confusão

Me levem o guarda-chuva

Qu’ inda lá estará no chão.

 

Olho do cimo da escada

E que vejo eu logo ali:

O rasto duma manada!

Foi carga de javali!

Só restam cabos partidos

Varetas encarquilhadas

E um trapo meio franjado

Com motivos em xadrez

Nem sei se era um guarda-chuva

Se o kilt dum escocês.

 

Só estudantes e operários.

Boa gente, já se vê.

Fui à bola ver a taça…

Que desgraça!

 

Zé Veloso

16/02/2007

 

-------------------------------------

P.S. Recebi esta pérola literária que acho merecer ser lida pelo maior número de pessoas para que possam desfrutar do imenso prazer que me deu lê-la. Ao seu autor, que gentilmente me permitiu publicá-la o meu muito, muito obrigado. Pela alegria que me proporcionou ao ler, e por me ter permitido publicar.